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Passiflora (maracujá): reúno as evidências científicas sobre ansiedade e sono, como usar, dosagem e contraindicações neste guia completo.

Eu pesquiso fitoterapia há 7 anos e, entre todas as plantas calmantes que já estudei, a passiflora é uma das que mais gosto de recomendar, justamente porque uma parte importante da sua fama popular tem apoio em estudos clínicos reais, algo que nem sempre acontece nesse universo cheio de promessas exageradas. Neste artigo eu reúno o que encontrei sobre os benefícios da passiflora, também conhecida como maracujá ou flor da paixão, incluindo o que a ciência já confirmou sobre ansiedade, como preparar e usar essa planta, qual a dosagem estudada e quais contraindicações merecem toda a sua atenção antes de começar a usar.

Quando eu falo em passiflora com finalidade medicinal, estou me referindo principalmente à Passiflora incarnata, uma espécie da família Passifloraceae nativa da América do Sul, popularmente conhecida como flor da paixão ou maracujá. É importante eu fazer uma distinção logo no início: a espécie mais estudada em ensaios clínicos de ansiedade é a Passiflora incarnata, enquanto o maracujá que consumimos como fruta no Brasil costuma vir da espécie Passiflora edulis. Algumas pesquisas recentes também avaliaram extratos de Passiflora edulis para ansiedade, mas a maior parte da evidência histórica e clínica que vou apresentar aqui se refere à Passiflora incarnata.
Tradicionalmente, são as partes aéreas da planta, folhas e caules, que são usadas na forma de extratos e chás, por conta da ação da passiflora sobre o sistema nervoso central. A planta é rica em flavonoides como a apigenina, além de alcaloides e outros compostos que, segundo os estudos que revisei, atuam sobre receptores relacionados ao GABA, o principal neurotransmissor inibitório do cérebro, o que ajuda a explicar o efeito calmante atribuído à passiflora.
Esta é, sem dúvida, a aplicação da passiflora com a base científica mais robusta. Um estudo clínico duplo-cego e randomizado comparou o extrato de Passiflora incarnata com oxazepam, um medicamento ansiolítico da classe dos benzodiazepínicos, em pacientes com diagnóstico de transtorno de ansiedade generalizada.
Os participantes foram divididos em três grupos, um recebendo 45 gotas por dia de extrato de passiflora, outro recebendo placebo, e outro recebendo 30 mg de oxazepam ao dia, ao longo de quatro semanas.
O resultado que mais me chamou atenção foi que o extrato de passiflora se mostrou tão eficaz quanto o oxazepam na redução dos sintomas de ansiedade generalizada, com uma vantagem importante: os participantes que usaram oxazepam apresentaram bem mais prejuízo no desempenho profissional do que os que usaram passiflora.
Leia também: Valeriana para Dormir: Dosagem, Tempo de Uso e Interações Medicamentosas, outra planta calmante que costumo comparar com a passiflora quando me perguntam qual delas escolher para ansiedade.
Outro contexto em que a passiflora foi bastante estudada é a ansiedade pré-operatória, aquele nervosismo que antecede um procedimento cirúrgico ou odontológico. Em um ensaio clínico com pacientes que precisavam de tratamento periodontal, um grupo recebeu gotas de extrato de maracujá na noite anterior ao procedimento e novamente antes do tratamento, e os níveis de ansiedade desse grupo foram significativamente menores do que nos grupos placebo e controle, demonstrando eficácia real nesse contexto específico. Eu considero esse tipo de achado especialmente prático, porque mostra um uso pontual e de curto prazo, bem diferente de um tratamento contínuo para transtornos de ansiedade diagnosticados.
Eu preciso, no entanto, ser honesto com vocês sobre um ponto importante: uma revisão sistemática da Cochrane, que avaliou os ensaios clínicos disponíveis sobre passiflora para ansiedade até 2005, concluiu que ainda existem poucos estudos de alta qualidade para fornecer uma recomendação definitiva sobre o lugar da passiflora no tratamento da ansiedade, mesmo reconhecendo que um dos estudos incluídos sugeriu equivalência com benzodiazepínicos. Isso não invalida os resultados positivos que mencionei, mas reforça que a passiflora ainda precisa de mais pesquisas robustas antes de ser considerada uma alternativa comprovada de primeira linha.

O uso da passiflora para dormir também tem respaldo em pesquisa clínica. Um estudo randomizado com 110 participantes com distúrbios do sono, que usaram extrato de Passiflora incarnata durante duas semanas, revelou resultados positivos na eficiência do sono e uma redução na frequência dos episódios de despertar noturno depois do início do tratamento. Na minha experiência de pesquisa, esse é um padrão que se repete: a passiflora parece ajudar mais na manutenção do sono, evitando despertares, do que necessariamente para “apagar” rapidamente, que é o efeito mais associado à valeriana.
Leia também: Melissa (Erva-Cidreira): Benefícios, Como Preparar o Chá, Dosagem e Contraindicações, uma planta que também recomendo para rotina de sono e que combina bem com a passiflora em blends fitoterápicos.
Ao longo da minha pesquisa, encontrei outras aplicações da passiflora, sempre com atenção ao nível de evidência disponível para cada uma:
Um estudo em modelo animal avaliou o extrato metanólico de Passiflora incarnata em quadros de dor neuropática e vulvodinia, encontrando efeitos antinociceptivos relacionados aos receptores GABA e opioides. É um achado interessante do ponto de vista mecanístico, mas, como foi conduzido em animais, ainda está longe de se traduzir em recomendação clínica para humanos.
Alguns estudos e revisões mencionam o uso da passiflora, muitas vezes combinada a isoflavonas, para sintomas climatéricos da menopausa. Encontrei, inclusive, um estudo de fase 3 registrado especificamente para avaliar essa combinação, embora tenha sido descontinuado antes da conclusão, o que reforça que essa ainda é uma área de pesquisa em desenvolvimento, sem confirmação definitiva.
Uma revisão sistemática sobre medicamentos fitoterápicos usados no tratamento de crianças e adolescentes com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade menciona a passiflora entre as plantas avaliadas, mas a evidência ainda é preliminar e não sustenta o uso rotineiro sem acompanhamento médico especializado nesse contexto.
Eu acho fundamental incluir aqui uma visão equilibrada: o Centro Nacional de Saúde Complementar e Integrativa dos Estados Unidos, órgão do NIH, publicou um material desmistificando alguns mitos sobre produtos naturais, e afirma diretamente que existem poucos ensaios clínicos de passiflora em humanos, o que, segundo a instituição, ainda é insuficiente para determinar com certeza se a passiflora é eficaz para qualquer condição específica. Eu escolhi incluir essa visão mais cautelosa porque acredito que informação responsável significa mostrar os dois lados, tanto os estudos positivos quanto os limites reais da evidência disponível até hoje.
Um uso menos conhecido, mas que encontrei documentado em revisões sobre a planta, é o da farinha feita a partir da casca do maracujá, rica em uma fibra solúvel chamada pectina.
Um estudo clínico piloto avaliou o efeito dessa farinha em um pequeno grupo de mulheres de meia-idade, e os resultados sugeriram potencial de auxílio na redução do colesterol, atribuído justamente ao teor de fibra solúvel presente na casca.
Eu acho importante deixar claro que esse é um uso completamente diferente do uso calmante das folhas de Passiflora incarnata que é o foco principal deste artigo: aqui estamos falando do aproveitamento nutricional da casca do fruto Passiflora edulis, o maracujá que consumimos à mesa, não do extrato medicinal usado para ansiedade. É um bom exemplo de como o gênero Passiflora reúne aplicações bem diferentes dependendo da espécie e da parte da planta utilizada.

Quando vou orientar alguém sobre qual produto de passiflora comprar, os critérios que eu uso são:
A forma mais tradicional e mais fácil de usar a passiflora em casa é em chá:
A passiflora também está disponível na forma de extrato líquido (tintura, geralmente administrado em gotas) e em cápsulas de extrato seco padronizado, formas que foram as mais utilizadas nos estudos clínicos que mencionei anteriormente.
Como pesquisador, preciso deixar claro que ainda não existe um consenso rígido de dosagem para a passiflora, e a maior parte dos dados disponíveis vem diretamente dos protocolos usados em ensaios clínicos:
| Forma de uso | Dosagem utilizada em estudos |
|---|---|
| Extrato líquido (gotas), ansiedade generalizada | 45 gotas por dia, divididas ao longo do dia |
| Extrato líquido (gotas), ansiedade pré-procedimento | 20 gotas na noite anterior e 20 gotas 90 minutos antes do procedimento |
| Chá de passiflora (infusão) | 1 xícara, podendo repetir à noite |
| Extrato padronizado, distúrbios do sono | Uso contínuo por até 2 semanas em protocolo de estudo |
Reforço um ponto essencial: essas são as dosagens utilizadas em ambiente de pesquisa clínica controlada, não uma prescrição para automedicação. A dosagem de passiflora adequada para o seu caso depende de fatores individuais, e o ideal é sempre buscar orientação de um profissional de saúde antes de ultrapassar o uso ocasional em chá.
Esta é, para mim, a seção mais importante de todo o artigo, porque encontrei contraindicações da passiflora que considero sérias o suficiente para merecer destaque:
Leia também: Camomila: Benefícios, Como Preparar o Chá, Dosagem e Contraindicações, outra planta calmante que, assim como a passiflora, exige atenção redobrada em gestantes.
Antes de combinar passiflora com qualquer medicamento, veja as interações que encontrei descritas na literatura:
Se você usa qualquer um desses medicamentos, meu conselho é sempre o mesmo: converse com seu médico ou farmacêutico antes de incluir a passiflora na sua rotina de forma regular.
O chá da fruta maracujá tem o mesmo efeito do extrato de passiflora usado nos estudos? Não necessariamente. A maior parte dos estudos com efeito calmante comprovado usou extrato das folhas e partes aéreas da Passiflora incarnata, não o fruto ou o suco da fruta que consumimos habitualmente. O chá feito com folhas secas de passiflora é o preparo caseiro mais próximo do que foi estudado.
Passiflora pode ser tomada todos os dias? Para uso ocasional em chá, a maioria dos adultos saudáveis tolera bem o consumo regular. Para uso contínuo com extratos padronizados, especialmente por períodos prolongados, eu recomendo acompanhamento de um profissional de saúde, já que a maior parte dos estudos avaliou períodos de poucas semanas.
Passiflora substitui um ansiolítico prescrito? Não. Mesmo com o resultado favorável do estudo comparando passiflora a oxazepam, isso não significa que você deva substituir um tratamento prescrito por conta própria. Se você já usa um ansiolítico, nunca interrompa ou troque a medicação sem orientação do seu médico.
Passiflora e valeriana podem ser combinadas? Sim, é uma combinação comum em fórmulas fitoterápicas voltadas para ansiedade e sono, e eu mesmo já vi essa combinação em produtos padronizados. Ainda assim, o mais seguro é começar com doses menores para avaliar sua resposta individual antes de combinar plantas diferentes.
Passiflora ajuda em crises de pânico? A maior parte dos estudos que revisei avaliou ansiedade generalizada e ansiedade situacional, como a pré-operatória, não especificamente crises de pânico agudas. Se você sofre com crises de pânico, minha recomendação é buscar avaliação de um psiquiatra ou psicólogo, já que esse quadro costuma exigir acompanhamento especializado e, em muitos casos, tratamento específico que vai além do que a fitoterapia sozinha pode oferecer.
Depois de revisar a literatura disponível sobre a passiflora, minha visão é que essa é uma das plantas calmantes com evidência clínica mais interessante, especialmente para ansiedade pontual e ansiedade pré-procedimento, com estudos que chegam a compará-la diretamente a medicamentos ansiolíticos convencionais. Ao mesmo tempo, como pesquisador responsável, preciso reforçar que a evidência ainda não é definitiva segundo os órgãos de saúde mais rigorosos, e que existe uma contraindicação séria durante a gravidez que merece todo o seu respeito. Use a passiflora com informação, evite durante a gestação, e procure sempre um médico ou farmacêutico se você tiver qualquer dúvida sobre o seu caso específico, especialmente se já usa outros medicamentos.
Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Consulte sempre um médico ou farmacêutico antes de iniciar o uso de passiflora, especialmente se você está grávida, amamentando, tem problemas cardíacos ou usa outros medicamentos.